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Festival Fala! homenageia trajetórias negras na educação, arte e…

Evento em Brasília homenageou Lydia Garcia, Juliana Cézar Nunes e Nelson Inocêncio. Encontro celebrou pioneiros da cultura negra e reforçou o papel do jornalismo independente como prática de resistência

Na imagem, três pessoas negras posam lado a lado sorrindo, segurando certificados e buquês de flores. À esquerda, uma mulher negra de pele clara, com tranças vermelhas presas no alto da cabeça, veste vestido alaranjado com estampas douradas. Ao centro, uma mulher negra de pele clara, com turbante azul e camisa estampada em verde, branco e azul, segura flores e certificado. À direita, um homem negro de pele escura, com longos dreadlocks grisalhos, veste túnica branca com detalhes amarelos e também segura flores e certificado.

Homenageados do Fala! 2025, a educadora Lydia Garcia, a jornalista Juliana Cézar Nunes e o professor Nelson Inocêncio receberam certificados e flores em reconhecimento às suas trajetórias | Foto: Débora Olivera/Alma Preta

A sexta edição do Festival Fala! – Festival de Comunicação, Culturas e Jornalismo de Causas celebrou trajetórias que marcam a história da educação, da arte e da luta pela identidade negra no Brasil. Realizado entre 2 e 4 de outubro, na Casa Comum, em Brasília, o encontro homenageou a educadora e musicista Lydia Garcia, o professor e artista Nelson Inocêncio e a jornalista Juliana Cézar Nunes.

O festival reuniu coletivos de comunicação, artistas, profissionais da mídia e pesquisadores de todo o país em mesas, oficinas e apresentações culturais. Também marcou o lançamento de um edital voltado a coletivos de comunicação, arte e cultura de Brasília, que terão seus projetos exibidos na próxima edição do festival, em Salvador, em 2026.


Juliana, mestra em Comunicação pela UnB e repórter da EBC desde 2004, também foi lembrada pela trajetória no jornalismo de causas. Vencedora do Prêmio Vladimir Herzog e do Concurso Tim Lopes, integra a Cojira-DF e o Coletivo Pretas Candangas. No primeiro dia do evento, participou da mesa de abertura “Tecnologias, artes e narrativas num mundo distópico: qual o lugar do jornalismo?”, ao lado de Lydia e Nelson, com mediação de Pedro Borges, da Alma Preta.

Sala de aula como disputa e possibilidade

Professor da Universidade de Brasília (UnB), artista visual e pesquisador, Nelson Inocêncio destacou a potência da educação como espaço de transformação social. “A sala de aula, apesar de todos os problemas, ainda é um lugar de possibilidades. Ali a gente disputa sentidos, provoca reflexões e forma multiplicadores”, disse.

Em entrevista ao Correio Braziliense, em 2022, Nelson contou ser “um homem negro fruto de uma relação de duas pessoas negras de classe média”. Filho de servidores públicos que chegaram a Brasília em 1960, nasceu no antigo Hospital Distrital em 1961 e se orgulha de ser brasiliense da primeira geração.

Ainda adolescente, participou da criação do Centro de Estudos Afrobrasileiros, primeira entidade negra do Distrito Federal, e frequentou os bailes de soul do fim dos anos 1970, quando imagens dos Panteras Negras eram projetadas em plena ditadura.

Um homem negro de pele escura está sentado e fala ao microfone. Ele tem cabelos longos e grisalhos em dreadlocks e veste uma túnica branca com bordados amarelos no centro. Ele aparece sorridente durante sua fala.

O professor e artista Nelson Inocêncio, da Universidade de Brasília (UnB), durante homenagem no Festival Fala!, em Brasília | Foto: Débora Oliveira/Alma Preta

Sua trajetória acadêmica e militante também ecoa na produção artística. Em 1993, defendeu a dissertação A consciência negra em cartaz, sobre a produção visual do ativismo como contraponto às imagens racistas da mídia. Acompanhou de perto a adoção pioneira das cotas raciais na UnB em 2003 e segue na defesa de políticas afirmativas. “A cota não é questão de capacidade, é questão de oportunidade”, afirmou à época.

À Ponte, reforçou a arte como linguagem política: “Só o fato de apresentarmos imagens que foram negligenciadas e sofreram apagamento já é um ato político da maior relevância. Eu me vejo como um artivista, um artista que constrói sua poética a partir de um pensamento ativista.”

Ao receber a homenagem, enfatizou a dimensão simbólica do reconhecimento: “É sobre perceber que não foi em vão. O movimento negro tem história, tem memória, e muitas vezes isso se perde. Essa homenagem me estimula a continuar, enquanto eu tiver lucidez e condições, a fazer o que sempre fiz”.

A arte como cura e continuidade

Uma mulher negra de pele clara está sentada em uma poltrona branca, segurando um microfone. Ela veste um vestido tradicional em tom alaranjado com estampas douradas, acessórios coloridos nos braços e tranças vermelhas presas no alto da cabeça.
A educadora e musicista Lydia Garcia, primeira professora negra de música do DF, em homenagem no Festival Fala!, em Brasília | Foto: Débora Oliveira/Alma Preta

Primeira professora de música do Distrito Federal, Lydia Garcia contou ao público sobre sua trajetória como mulher negra que abriu caminhos em diferentes áreas culturais. “Sou uma mulher negra que nasceu em uma família simples, de trabalhadores. Mesmo com a pouca instrução dos meus pais, pude vivenciar, como menina negra, muita coisa bonita”, disse à Ponte.

Nascida no Rio de Janeiro em 1938, filha de uma costureira e de um funcionário público, iniciou os estudos de piano aos 7 anos e se tornou especialista em iniciação musical pelo Conservatório Brasileiro de Música. Nos anos 1960, já em Brasília, participou ativamente da formação cultural da nova capital e se tornou referência como educadora.

Em 2024, recebeu o título de Cidadã Honorária de Brasília. Na ocasião, a deputada Erika Kokay (PT-DF) destacou sua coragem na defesa de uma sociedade não racista, e a historiadora Ana Flávia Pinto ressaltou que o acervo privado da educadora “tem força de arquivo comunitário por meio do qual é possível contar a história da população negra no DF, a história das artes, da educação e da militância”.

Lydia também destacou a importância da família como legado: mãe de cinco filhos, avó de onze netos e bisavó de duas bisnetas, celebrou cada nome como parte inseparável de sua história.

Ao longo da vida, transitou entre o piano clássico, a música popular, o folclore, as artes visuais e a moda. Fundadora do primeiro ateliê de moda afro em Brasília, orgulha-se de ver jovens empreendendo no mesmo campo: “Fui criadora do primeiro ateliê de moda afro. Se hoje em Brasília jovens empreendem com moda africana e brasileira, eu fui uma das pioneiras”.

Para ela, a arte é fundamento da vida coletiva: “A arte faz com que as pessoas possam viver em sociedade, fazer os relacionamentos. A arte cura, através da saúde mental”. Aos 87 anos, resumiu sua trajetória como esforço coletivo: “Hoje sigo trazendo comigo muita gente”.

Itinerância e futuro

Promovido pelo Instituto Fala!, em parceria com a Ponte Jornalismo, a Alma Preta e o portal Marco Zero, o festival itinerante se consolida como espaço de experimentação em comunicação, arte e jornalismo de causas. Em Brasília, além das homenagens, o público assistiu a documentários como Menire: somos filhas da resistência, do Coletivo Beture, e Isso não é cultura, de Lucas Mathias e Tabita Aynõa, e participou de debates sobre políticas públicas, financiamento de projetos e rumos do jornalismo independente no país.

A próxima edição já está marcada: em 2026, Salvador (BA) receberá a sétima edição do Festival Fala!. Até lá, segue aberto o edital para coletivos do Distrito Federal, reafirmando a proposta de ampliar vozes, valorizar iniciativas locais e fortalecer a incidência cultural e política nos territórios.

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